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sexta-feira, abril 4, 2025

Os EUA vão cortar as taxas de juros e o Brasil pode aumentá-las. O que está acontecendo?

Quando se trata do preço do dinheiro, medido pelas taxas de juros, os Estados Unidos estão indo para um lado e o Brasil para o outro.

Espera-se que os EUA comecem a cortar suas taxas básicas de juros na próxima semana, em uma reunião de presidentes regionais e diretores do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA). A principal questão é sobre a magnitude: se a redução será de 0,25 ou 0,5 ponto percentual. A taxa está atualmente na faixa de 5,25% a 5,5% ao ano.

No Brasil, a tendência é oposta. A possibilidade de aumento da taxa básica de juros (Selic) cresceu nas últimas semanas. A reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) está marcada para as mesmas datas da reunião do Fed: 17 e 18 de setembro.

O mercado fez um forte ajuste em suas expectativas. No último boletim Focus, publicado pelo Banco Central nesta segunda-feira (9), bancos e consultorias começaram a projetar um ciclo de altas para a taxa Selic.

Após 11 semanas consecutivas indicando que a taxa permaneceria em 10,5% até o fim do ano, o ponto médio das expectativas para dezembro saltou para 11,25%, começando com ajuste de 0,25 ponto na semana que vem.

Um dos fatores que contribuem para essa expectativa de alta é que as projeções de inflação para 2024 estão se aproximando do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.

Segundo o Focus mais recente, o ponto médio (mediana) das projeções para o IPCA deste ano chegou a 4,3%, registrando a oitava semana consecutiva de crescimento. No início do ano, a expectativa era de 3,9%.

“A revisão para cima do IPCA de 2024 feita pelo Focus só reforça a preocupação do BC com a desancoragem das expectativas”, afirma José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos.

Os contratos de opções do Copom, negociados na B3, também indicam alta da taxa Selic. Na quarta-feira (11), as negociações indicavam 77,5% de probabilidade de alta de 0,25 ponto nos juros. A chance de alta ainda maior, de 0,5 ponto, era de 12,5%. E de manutenção, de apenas 9,5%.

A perspectiva para 2025 também piorou. A expectativa mediana para o IPCA subiu de 3,5% no início de janeiro para 3,92% mais recentemente. No mesmo período, a projeção para a taxa Selic no final de 2025 aumentou de 8,5% para 10,25%.

Menor inflação e desaceleração do mercado de trabalho facilitam cortes de empregos nos EUA

O presidente do Fed, Jerome Powell, disse no mês passado que um corte de juros na economia dos EUA está muito próximo. A declaração foi feita durante o Simpósio de Política Econômica do Fed, realizado anualmente no resort de esqui Jackson Hole, no estado de Wyoming (norte dos EUA), que reúne diretores dos principais bancos centrais do mundo.

Segundo Powell, dois fatores favorecem uma redução nas taxas de juros em setembro: o progresso na redução da inflação e a evidência de uma desaceleração no mercado de trabalho, que ainda está aquecido. Ele destacou que o ritmo e a magnitude da redução dependerão da análise dos dados econômicos daqui para frente.

Embora a inflação dos EUA ainda esteja longe da meta de 2%, ela vem caindo. Em julho, o aumento acumulado de 12 meses nos preços ao consumidor foi de 2,9%, o menor valor desde março de 2021, de acordo com dados do US Bureau of Labor Statistics (BLS).

Economistas do Itaú dizem que, embora os dados de atividade e inflação estejam enfraquecendo, eles ainda são altamente voláteis. Mas, mesmo assim, o índice de preços ao consumidor tem mostrado números mais favoráveis ​​ao longo do tempo, com uma melhora persistente nos serviços.

O chefe da autoridade monetária dos EUA observou que os ajustes no mercado de trabalho são resultado principalmente da normalização da oferta e da demanda após a pandemia da Covid-19, sem cortes significativos de empregos, mas sim da expansão da taxa de participação da força de trabalho e da moderação nas contratações.

A taxa de desemprego nos EUA vem aumentando constantemente desde julho de 2023, subindo de 3,5% para 4,3% no mês passado. Enquanto isso, a taxa de participação da força de trabalho para aqueles com 16 anos ou mais aumentou de 62,5% em dezembro para 62,7% em julho. Embora o mercado de trabalho ainda não tenha se recuperado totalmente da pandemia, este é o maior nível de participação para o mês desde 2019.

“Nosso objetivo tem sido restaurar a estabilidade de preços, manter um mercado de trabalho forte e evitar os aumentos acentuados no desemprego que caracterizaram episódios desinflacionários anteriores, quando as expectativas de inflação estavam menos bem ancoradas. Embora a tarefa não esteja concluída, fizemos um bom progresso nessa direção”, disse Powell em Jackson Hole.

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O economista-chefe da Nomad, Danilo Igliori, disse que setembro marcará o início de um novo capítulo no combate à inflação pós-pandemia. “O discurso de Powell indica que o momento mudou e que o Fed precisa agora focar no segundo vetor do seu mandato: garantir que a economia permaneça próxima do pleno emprego”, completa William Castro Alves, estrategista-chefe da corretora Avenue.

O Itaú espera que o reequilíbrio do mercado de trabalho na maior economia do mundo permita três cortes de 0,25 ponto percentual nas taxas de juros do Fed neste ano. No início deste mês, a expectativa era de apenas dois cortes. Em junho, Michelle Bowman, governadora do Fed, descartou a possibilidade de reduções em 2024.

Aumento da inflação, problemas fiscais e atividade econômica aquecida pesam sobre fixação de juros no Brasil

A posição do Fed sobre os juros nos EUA será um dos fatores determinantes para a decisão do Copom na próxima reunião no Brasil.

“Se a flexibilização monetária estiver garantida nos EUA, aqui ainda estamos discutindo a possibilidade de novos cortes. Acredito que as chances de aumento da taxa Selic em setembro perderão força se o corte de juros nos EUA for de meio ponto percentual. Por outro lado, se a redução for de 0,25 ponto, pode ser difícil evitar um aumento aqui”, diz Alves, da corretora Avenue.

Outro fator crucial que vai influenciar o Copom é o comportamento da inflação. Segundo o economista-chefe da G5 Partners, Luís Otávio Leal, há uma tendência de alta. Neste mês, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ativou a bandeira vermelha nas contas de luz, por conta da seca, o que aumenta a tarifa para os consumidores.

Os últimos dados de inflação no Brasil vieram um pouco abaixo das expectativas do mercado. Em agosto, houve uma leve deflação de 0,02%, ante a expectativa mediana de uma variação positiva de 0,01%. O IPCA acumulado em 12 meses, por sua vez, caiu de 4,5% em julho – teto da meta do Banco Central – para 4,24% em agosto.

São números que podem até confundir a decisão do Banco Central, mas ficaram muito próximos do que o mercado esperava. Portanto, não representaram uma mudança nas expectativas.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e o diretor de Política Monetária, Gabriel Galípolo – indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para presidir o órgão a partir de 2025 – mencionaram há semanas a possibilidade de aumento da taxa Selic.

Campos Neto afirmou, durante simpósio em Jackson Hole, que o Brasil enfrenta duas grandes dificuldades: o aquecimento do mercado de trabalho e o aumento da percepção de risco fiscal.

A taxa de desemprego no Brasil caiu para 6,8% em julho, a menor desde janeiro de 2015, segundo o IBGE. O número de trabalhadores com carteira assinada chegou a 47 milhões em junho, o maior desde o início da série histórica do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged/MTE).

Os salários estão subindo mais rápido que a inflação, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Cerca de 87,2% dos reajustes salariais do primeiro semestre foram superiores ao INPC, índice que mede a inflação para famílias com renda de até cinco salários mínimos, registrando o melhor desempenho em dez anos. O aumento real (descontada a inflação) foi de 1,3%.

Campos Neto enfatizou no simpósio que no Brasil há mais pessoas dependentes de programas governamentais do que empregadores e empresários. “Precisamos pensar em uma estratégia precisa e entender a eficiência desses programas governamentais e seu impacto na dívida pública”, disse.

Juros podem não ser “suficientemente restritivos” no Brasil, diz XP

Economistas da XP Investimentos sugerem que a política monetária no Brasil não é “restritiva o suficiente”. A avaliação é de que o Copom deve iniciar um ciclo moderado de altas em setembro, com expectativa de duas altas de 0,25 ponto percentual e mais duas de meio ponto nas próximas quatro reuniões, levando a taxa Selic a 12% ao ano em janeiro de 2025.

Segundo analistas da corretora, essa política monetária pode levar a um distanciamento ainda maior do patamar neutro da taxa de juros (aquela que não influencia positiva ou negativamente a atividade econômica), abrindo espaço para uma redução no fim de 2025 ou início de 2026. No entanto, será preciso monitorar a evolução dos indicadores econômicos, conforme destacaram em relatório.

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