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sexta-feira, abril 4, 2025

Brasil sinaliza contra austeridade ao nomear economista para o FMI

A nomeação de um economista com viés antiliberal para um conselho do Fundo Monetário Internacional (FMI) é uma sinalização do governo de Luiz Inácio Lula da Silva de que é contra a política de austeridade fiscal do fundo, que é um dos principais órgãos financeiros das democracias liberais do Ocidente, segundo analistas ouvidos pelo Gazeta do Povo. André Roncaglia foi nomeado pelo governo em agosto e deve assumir o novo cargo em setembro, substituindo o economista Afonso Bevilaqua, que havia sido nomeado pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O ato se soma a outros ataques feitos por Lula contra o sistema financeiro ocidental. Em março de 2023, o petista criticou o uso do dólar como moeda dominante no comércio internacional, alegando que essa era a razão do endividamento dos países em desenvolvimento. Lula também embarcou em uma iniciativa política da China para adotar uma moeda no âmbito do BRICS (bloco político formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Irã) para substituir o dólar.

Segundo Roberto Piscitelli, economista da Universidade de Brasília, a nomeação de Roncaglia é um movimento simbólico, mas não é capaz de transformar a direção política do FMI. “Ele (Roncaglia) é um voto único entre dezenas de pessoas, e não tem poder para mudar muita coisa”, disse.

Mas a nomeação reflete o entendimento do governo Lula de que as medidas de austeridade exigidas pelo FMI são prejudiciais, segundo Piscitelli. As cartas de intenção que acompanham os acordos para os países exigem aperto fiscal nas contas públicas e maior rigidez nos gastos do governo.

“Minha visão de mundo é verdadeiramente desenvolvimentista e não tenho intenção de esconder isso. Luto por relações comerciais equilibradas”, disse Roncaglia Gazeta do Povo. Ele diz que se vê como um representante do “Sul global” e rejeita que sua nomeação tenha relação com a atuação política do governo brasileiro no BRICS, considerado um bloco com viés antiamericano.

O governo brasileiro substituiu Afonso Bevilaqua, nome de perfil técnico que estava no cargo desde 2019, por um economista ligado à esquerda que defende sua visão de mundo em colunas na imprensa e nas redes sociais.

O Ministério da Fazenda de Fernando Haddad (PT) está no Conselho Executivo do FMI. Dessa forma, Haddad tem a prerrogativa de escolher o diretor executivo — a terceira maior autoridade do país nesse Conselho, depois do próprio Haddad e do presidente do Banco Central. Roncaglia poderá votar junto com outros 24 diretores de outros países. O Brasil está em 10º lugar no ranking de poder no conselho, com 2,32% de participação. O economista trabalhará baseado em Washington e participará de reuniões técnicas que deliberam sobre o dia a dia da instituição e ações de ajuda aos países.

Integrantes da oposição criticaram a indicação, demonstrando preocupação com a mensagem que ela passou. “Infelizmente, todas as instituições estão sendo usadas para sustentar a ideologia do partido. Estamos dando mais um passo em direção à interferência estatal, um retrocesso para um mundo que deve ter cada vez mais suas fronteiras abertas ao livre mercado”, declarou o deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS).

A mudança substituiu um economista com doutorado pela Universidade de Berkeley e especialização em dívida externa por um acadêmico que apoia o governo do PT. Suas colunas de opinião defendem temas de esquerda e dizem que o pensamento liberal é uma “doença”. Na opinião de Leonardo Siqueira, líder do Partido Novo na Assembleia Legislativa de São Paulo e mestre em economia pela Escola de Economia de Barcelona, ​​a relevância acadêmica de Roncaglia seria menos robusta que a de Bevilaqua.

“Mas o pior é que o governo diz defender a ciência, mas não cumpre. Roncaglia tem uma visão ultrapassada, sem respaldo em artigos acadêmicos, de que o governo pode gastar como bem entender e que isso estimula a economia”, disse Siqueira.

Mas a visão antiliberal de Roncaglia não é exclusiva dele. É uma opinião consolidada entre economistas de universidades federais, como a Universidade de Brasília (UNB), onde Roncaglia é professor. Segundo essa escola de pensamento, a austeridade nas finanças públicas seria uma “invenção” não apenas indesejável, mas também prejudicial.

Após o governo tentar flexibilizar medidas da nova regra do recém-criado Marco Fiscal, em abril, o FMI piorou as projeções do país, estimando um déficit primário de 0,6% do Produto Interno Bruto neste ano e de 0,3% em 2025, o que deve garantir as contas públicas no vermelho até 2026, último ano do mandato de Lula. A dívida pública deve atingir o valor de mais de 90% do PIB até essa data.

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Lula nomeou Dilma para o banco dos BRICS no ano passado

O ex-CEO do Brasil, Afonso Bevilaqua, que estava no cargo desde 2019, o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro (PL), também atuou no Banco Central do Brasil. Ele foi pressionado por políticos do PT em 2005 por seu alinhamento com medidas de controle da inflação, como taxas básicas de juros calibradas para pressionar o consumo para baixo. Em seu papel no FMI, ele foi criticado pelo governo esquerdista de Alberto Fernández por não ter feito mais para promover um tratamento generoso à Argentina endividada.

Poucos meses após assumir a Presidência da República, Lula nomeou a ex-presidente Dilma Roussef para o banco dos BRICS, com um salário de mais de US$ 50 mil, e também aproveitou uma brecha na lei das estatais para acomodar aliados nas presidências das mais importantes empresas públicas do país.

Economista tinha um canal no YouTube chamado Conexão Xangai

Após sua nomeação para o FMI, amigos do economista comemoraram a conquista do “Shanghai Connection” nas redes sociais. O nome do canal do YouTube que Roncaglia mantém com outros economistas de esquerda desde 2021 teria sido escolhido pelo próprio público como um contraponto ao Manhattan Connection. O talk show criado pelo jornalista Lucas Mendes e exibido nos canais pagos da Globo ficou famoso pela participação de nomes mais identificados com a direita, como Paulo Francis e Diogo Mainardi.

A descrição do canal ataca imediatamente o neoliberalismo. “Somos quatro economistas vacinados contra a doença holandesa e o liberalismo de jardim de infância, que não acreditam no destino das nações, mas na economia de projetar para a prosperidade nacional.”

Roncaglia tende a ter uma visão de mundo que vê o Estado e os gastos flexíveis como a força motriz por trás do progresso. “Procurarei levar o desenvolvimento a lugares do planeta onde ele ainda não chegou”, projetou Roncaglia.

FMI
O FMI é uma instituição que foi criada na Convenção de Bretton Woods, nos Estados Unidos, em 1944, último ano da Segunda Guerra Mundial. Na mesma época, o dólar se tornou a moeda mundial, com seu valor atrelado ao ouro. O papel do FMI era regular o sistema financeiro global e manter a estabilidade. Em outras palavras, evitar que os países entrassem em falência e evitar que a desordem social e econômica gerasse guerras.

O Brasil, que foi socorrido pelo fundo muitas vezes, foi um dos membros fundadores e agora é credor da instituição, então pode nomear um diretor executivo. O Brasil também representa outros países menores no fundo, como Equador e Suriname.

Mas o Brasil tem um histórico de muitos acordos quebrados com o FMI. O primeiro presidente a quebrar sua palavra foi Juscelino Kubitschek, em 1959. Ele queria gastar livremente para atender suas ambições de desenvolvimento e inaugurar a nova capital, Brasília, a tempo.

Durante os governos militares, os projetos de desenvolvimento da ala que acelerou o chamado Milagre Econômico também foram financiados pelo FMI. O pior momento viria com o fracasso do Plano Cruzado, quando o país declarou moratória. O FMI passou então a ser retratado pela esquerda como sinônimo da pobreza do país, da economia caótica e da inflação galopante. Slogans contra a instituição eram comuns nas manifestações de esquerda, que viam as reivindicações por aperto como fatores de dominação estrangeira (americana) do país. “Fora FMI” era o slogan.

O Plano Real mudaria tudo nos anos 1990. O presidente Itamar Franco regularizou os créditos. O governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi forçado a se endividar novamente. Na campanha presidencial de 2002, pagar a dívida virou promessa de campanha para todos os candidatos, inclusive Lula. Os passivos com o FMI foram quitados no final de 2005 e, três anos depois, o Brasil se tornou credor.

A relação atual do Brasil pode ser considerada normal. No entanto, em 2014, o país flertou com uma nova ordem mundial e se uniu ao grupo conhecido como “BRICS” junto a países emergentes como Rússia, Índia, China e África do Sul, como alternativa à hegemonia norte-americana. Considerado por especialistas o único efeito prático da criação do bloco, o banco dos BRICS foi criado e, desde 2023, é presidido por Dilma em Xangai.

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